April 9th, 2012

023

Era uma vez eu. Aos meus 12 anos conheci uma garota. Teria sido uma amizade normal, um garoto de 12 anos que atormentava uma garota de 11 anos puxando os cabelos, mordendo, roubando suas balas no intervalo. Teria sido se, pouco mais de dois anos após o primeiro “oi” eu não tivesse percebido que estava apaixonado por ela. Então um dia, quando já estávamos juntos, ela me disse:

- Criei apelidos pra nós.

- Mesmo? Quais?

- Você é Casus e eu sou Nivis.

- Nossa. Mas que quer dizer? Tem explicação?

-  ”Nivis Casus” significa “Avalanche” em Latim. Separados Nivis significa “neve” e Casus significa “caso”. Da certinho. Eu sou calma e suave como a neve. Você é agitado de qualquer jeito e vive “criando caso” com os outros. E quando nos dois estamos juntos e agitados fazemos a maior bagunça, principalmente quando você fica me infernizando. Uma verdadeira avalancha.  

- Você realmente pesquisou tudo isso ou te deram algum cigarrinho de palha?

- Logico que pesquisei, seu bobo. 

- Então você é doida mesmo.

- Talvez. Mas este não é o caso.

- Claro que não, eu sou o “caso”.

Ela riu.

- Para. você entendeu, não é? Você aceita?

- Ok, eu aceito, senhorita Nivis.

Lindo, não é? ah, o primeiro amor… É, foi há algum tempo. Permaneceria, se a vida fosse assim simples. Ela tinha um problema. Seus órgãos estavam falhando. E ninguém sabia o porque. Duas semanas no hospital tentando descobrir o que estava causando o problema. Nivis estava morrendo e eu não podia fazer nada. Ela não foi sequestrada e eu teria que derrotar 10 dragões, um exército inteiro e atravessar um rio de lava fervente para resgata-la. Era pior. Era algo que eu não poderia lutar, que eu não podia derrotar. Eu não poderia salvá-la. Eu não podia fazer nada. 

Eu visitava ela todos os dias, e, em um desses dias, ela me disse:

- Você sabia que a minha avó sabia falar Latim?

- Não, você nunca me contou. Foi com ela que você ficou sabendo que Avalanche é Nivis Casus?

- Sim, ela que me inspirou com os apelidos. Ela me contou sobre um ritual, que era bem antigo.

- Que ritual?

- É chamado de BASIUM EX MORTUUS e é bem simples. Tudo que você precisa é de um objeto pequeno, que seja fácil de se carregar sempre. Pode ser qualquer coisa que dure por vários anos como um colar, um anel, um brinco… Você deve carrega-lo por um certo tempo, não me disseram quanto exato, mas o suficiente para que ele seja totalmente familiar a você. Quando se chega ao leito de morte, ou o momento certo, você deve dar o objeto para a pessoa que mais ama. Se a pessoa aceitasse, ela deve levar sempre consigo o objeto. Até o fim da sua vida. Esse objeto simboliza a pessoa que o deu, o amor dela, e é chamado de “osculum”, que significar “beijo”. Então, ela nunca seria esquecida e nunca deixará de existir. 

- Mas como vou ser capaz de te esquecer? Nem mesmo se trocassem meu cérebro. E você vai ficar melhor. Em breve estaremos em casa assistindo TV, eu vou aceitar até assistir As Meninas Superpoderosas com você.
Ela riu.

- Sim … Eu sei … mas como eu disse, “quando fosse o momento certo”. E agora é.

- E porque agora é o momento certo?

- Porque agora eu tenho certeza que eu te amo.

Eu acho que nunca fiquei tão envergonhado e ao mesmo tempo feliz na minha vida. Ela levantou a cabeça e me pediu para pegar um cordão que estava em torno de seu pescoço.

- É isso. Eu usei por algum tempo, uns 2 anos. Acho que é tempo suficiente.

- Eu sei disso. Fui eu que te dei esse cordão.

- Sim, e isso o torna perfeito. - Ele se ajeitou na cama, e com um tom serio na voz disse - Aquele que chamo de Casus, você aceita carregar este osculum com você até o fim de seus dias?

- Aceito. - Ela sorriu enquanto eu colocava o pingente em volta do meu pescoço. - Acabou? é só isso?

- Não, agora eu teria que te beijar, por isso que o objeto se chama osculum. Mas como sou uma dama, é você tem que… - a interrompi com um beijo. Não prestei atenção exatamente no que ela estava dizendo alem do verbo “beijar” - … me beijar. Agora sim está feito. 

- Interessante… o nome do ritual, como é mesmo? Basio..

Basium ex Mortuus.

- Isso ai, o que quer dizer?

- “Base dos Mortos”, porque o osculum é a base de existência neste mundo da pessoa que já partiu.

- Nivis…

- Ah, tem mais uma coisa. Cada pessoa só pode dar um osculum, e a pessoa que o recebe deve criar seu próprio osculum para um dia realizar o Basium ex Mortuus e assim por diante.

- Quer dizer que um dia eu vou ter que fazer o mesmo ritual com você? Vou ter que escolher um osculumbem legal pra você.

- Sim, de preferencia um brinco bem legal.

- Ok, quem sabe?

E foi assim o dia que eu selei o conheci e selei o Basium Ex MortuusEu tinha 14 anos.

…Três dias depois o fígado dela parou completamente. 4 horas depois ela morreu. Oito dias depois, foi contatado um exame padrão e um transplante de fígado a teriam salvo.



Essa é a minha história.